O Coleccionador
Nos meus tempos da embaixada em Paris, recebia inúmeras cartas de colecionadores. Foi aí que comecei a reflectir sobre estas formas estranhas e inesperadas de nos relacionarmos com o mundo. Assim, um velho polícia reformado fazia colecção de capacetes da polícia. E escrevia-me porque não conseguiria dormir sem ter um exemplar de capacete da polícia portuguesa — sentiria sempre que o mundo estava incompleto.
Mais insólita era aquela mulher que tinha como ideal na vida reunir areia das praias de todos os países do mundo. E queria que eu lhe arranjasse areia de uma praia portuguesa. Por momentos, estive para lhe perguntar por que não coleccionava o ar de cada país — seria algo de mais etéreo. Mas percebi que este meu humor funcionaria como uma agressão inútil e imprópria da diplomacia de um país. Estive ainda tentado a resolver o problema com um pouco de areia de uma praia da Bretanha. Mas todos os princípios mais elementares da ética me gritavam que tal seria inadmissível. Aproveitei então umas férias em Portugal para recolher um pouco de areia da praia das Avencas na Parede, e assim satisfiz a terrena inquietação da minha correspondente.
Eduardo Prado Coelho,
O Coleccionador in Colecção Mil Folhas do Público

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