A Infância dos meus tios
PEDAÇOS DA MINHA INFÂNCIA - PARTE I
Não nasceram de geração espontânea em Cacolo. O Papá Lacerda foi lá colocado depois da sua 1ª Graciosa à Metrópole já com 3 dos seus muitos rebentos.
O regresso de Portugal fez-se de barco desde Lisboa até Luanda como é suposto ter sido. Viagem miserável em que o barco se recusou a estabilizar em qualquer dos sentidos. Se a do ano anterior tinha sido má, essa foi pior pois o factor novidade não estava presente. Sabem como são as viagens de barco, não sabem? O chão, misteriosamente, ganha vida e luta contra tudo e todos que se atrevam a tocar-lhe. E são saltos e solavancos, e... "agora sacudo para a esquerda e agora para a direita e eu, barco, não me divertia a ver-vos ficar verdes e amarelos quais bandeiras brasileiras..."?, mas agora é para cima e cá vamos nóóós para baixo...
A família aumentara em número não porque lhes tivesse nascido outro bebé mas porque a avó Ilda os acompanhou na aventura africana.
Luanda à sua espera, linda como sempre, mas pouco tempo lá estiveram. O suficiente para perderem o ar de bandeira com que desembarcaram... Não havia ninguém que estivesse melhor que um lenço depois de uma valente gripe!
O dia de seguirem para Malange chegou e foi a vez de tomarem o comboio.
Não se esqueçam de se que estava em 1951. A única coisa boa dessa viagem foi que só durou 1 dia. Não vou entrar em pormenores pois gosto demais de todos vós.
Mais uns dias para se recomporem. A criançada tinha perdido as cores verde e amarela e ganho um belo tom cinza-azulado. Tudo normal...
Mas Cacolo, estava a muitas centenas de kms e não havia nem avião nem comboio para lá e o Papá Lacerda ainda não atingira aquele santo estatuto que lhe daria direito a ter carro próprio... Recorreu-se ao táxi (nessa altura já tinham sido inventados os táxis por ali e pelo resto do mundo, graças a Deus!).
A viagem durou dois dias. A primeira noite passaram-na em casa de um Chefe de Posto cuja esposa fez das tripas coração para os receber nos conformes.
No segundo dia, a uns 20kms do destino e já de noite, o táxi recusou-se a andar depois de meia dúzia de soluços: acabara-se-lhe a gasolina. Estava fora de questão fazer o resto do caminho a pé como a avó Ilda sugeriu, mas a ela tudo se perdoou uma vez que só estava em Angola há meia dúzia de dias e ainda não conhecia as regras do jogo.
E lá estavam todos enfiados num velho Mercedes (ou o que quer que fosse): Os Papás Lacerda, a avó Ilda, os 3 rebentos do casal e o motorista do desgraçado táxi. Ainda havia uns restos de pão que no Posto do Cucumbi lhes tinha sido oferecido pela esposa do Chefe e... tudo bem. O pior veio depois quando um leão começou a rondar o táxi e a Natureza começou a chamar um por um... valeu-lhes um copo de lavar os dentes que a Mamã Raquel tinha à mão! Mais difícil foi com a mais nova da família que tinha 14 meses... Sobre a madrugada o leão desistiu e depois do sol nascer passou uma camioneta que socorreu o grupo novamente amarelo-esverdeado.
Foram recebidos pelo Sr Secretário e família com sinais de grande alívio por terem chegado. Por terem chegado...
Banho, mata-bicho (café da manhã)... Luxúria suprema!
Em casa do Sr Secretário estava o Sr Administrador sessante, a consorte e a cunhada. Esperavam os viajantes para lhes passarem o facho, qual corrida de estafetas.
Durante todo esse dia procedeu-se ao inventário do recheio da casa e da Secretaria e conferiu-se a carga. O Papá Lacerda tomou posse do lugar oficialmente e o resto do dia foi passado em casa do Sr Secretário que fez questão em oferecer as refeições uma vez que ainda não estavam orientados o insigni-viajante (o que seguiria para o próximo Concelho) nem o insigni-ficante, titular daquele.
Durante o jantar de boas-vindas e despedida, o Sr Administrador sessante fez questão de avisar os Papás Lacerda, com muito tacto e oportunidade (?), do facto de, na residência oficial, morar um ex-colega que gostara muito da zona e que, depois de se ter passado para o outro plano, fizera as malas e se mudara para a antiga casa onde fora tão feliz... O Papá Lacerda, católico fervoroso, riu-se às gargalhadas, coisa rara nele pois era de poucos risos. Os pelinhos de todo o corpo da sua primogénita (eu) eriçaram-se. Ela não soube explicar bem se foi por ouvir o Papá Lacerda rir daquela maneira ou por ouvir a conversa dos adultos que, à boa maneira daqueles anos benditos, se tinham esquecido que as crianças não eram surdas... Aliás, todos riram menos os 3 insigni-viajantes.
Findo o jantar e o cerimonial dos agradecimentos, o Sr Secretário e esposa fizeram questão em acompanhar os novos residentes ao casarão.
Não havendo electricidade em Cacolo (ainda não tinha sido inventada por lá embora o tivesse sido no resto do mundo), a Dª Stela empunhou um candeeiro a petróleo para iluminar o caminho.
Ao fundo da alamedazita que separava as duas casas estava a nova residência dos ficantes com as janelas de madeira abertas de par em par e com um candeeiro aceso em cada uma.
-"Que simpática, Stela, ter mandado cá alguém acender os candeeiros!" - disse a Mamã Raquel toda embevecida.
-"Não mandei ninguém... Tenho a chave da casa no bolso desde que de tarde ali estivemos..."
Teresa Lacerda
PEDAÇOS DA MINHA INFÂNCIA - PARTE II
Início da década de 50.
O papá Lacerda colocado em Cacolo como administrador dos Quiocos, entre Saurimo e Malange, vivia feliz e contente entre a administração e as sanzalas e a colecta dos impostos e a tentativa (frouxa) de convencer uns quantos mancebos a oferecerem-se como "voluntários" para as minas da Diamang no Dundo e a orientar umas quantas queimadas "controladas" e a promover o recenciamento e a vacinação da varíola (e não sei que mais) (quem se lembra das brigadas da Pentamidina? ) e a sua casa.
Tão feliz estava que se recusava a pedir transferência para uma terra mais desenvolvida... Cacolo não tinha médico, nem padre, nem escola...
A mamã Raquel que se esforçava desesperadamente em orientar uma casa cheia de crianças e os milhentos funcionários que lhe caíam no prato porque se diziam e estavam em trânsito e ainda não tinha sido "inventado" o avião para aquelas bandas e chegavam por terra e arrasados de dias e dias de viagem com mulheres, sogras e filhos pedia-lhe desesperada que pensasse na dita transferência até porque a Teresinha (eu), estava em idade de ir para a escola. Que não, que estava muito bem ali, que o clima era óptimo, que havia muita caça, que os funcionários eram porreirinhos, que as crianças andavam à vontade...
A mamã Raquel que fizera o curso comercial há pouco tempo (casara-se com 16 anos) e ainda tinha as matérias muito frescas decidiu ensinar a sua primogénita a ler e a escrever.
E assim foi: com resmas de papel almaço e lápis vários e mais tarde com caneta de aparo e um tinteiro que o papá Lacerda trouxe da administração ensinou a criança(eu) a ler e a escrever (todas as regras gramaticais de que se lembrava - e eram muitas) e também as tabuadas e as contas e problemas daqueles das torneiras etc... e Geografia e História de Portugal. E tão entusiasmada andava que quase deu o curso comercial à cachopa (eu) que ia aprendendo tudo julgando que era assim mesmo!
Quando achou que sim, que a rapariga (eu) já lia e etc, foram a Saurimo e inscreveram-na para fazer os exames da 1ª à 2ª e da 2ª à 3ª em regime de ensino doméstico e no dia afixado lá foram todos na carrinha que dessa vez até funcionou. ( Nessa altura faziam-se exames em todas as classes, lembram-se? )
Corria o ano de 1953.
Claro que a rapariga (eu) fez uns exames belíssimos e ao fim do dia resolveram regressar a Cacolo pela fresca.
Feitos vários kms, o ajudante da carrinha que ia de farolim ligado a baterias, bate na capota a assinalar caça. O papá Lacerda emocionado, trava e salta ligeiro (também ele era um rapazito...) e pega na espingarda para prover a nossa gruta de carne fresca! A recém-examinada (eu) estava em pulgas: a sua 1ª caçada!
O Xico dizia:
"Patrão, é um veado e vem para a estrada, para a frente do carro".
O papá Lacerda corre para a frente do mesmo e espera. Um belíssimo veado cruza a estrada em saltos elegantes e o destemido caçador dispara... e não acerta.
O Xico grita:
"Patrão! está a dar a volta no mato e vai passar por trás da carrinha!"
E lá vai o caçador aos saltos apanhar o veado quando ele passasse pela estrada. O veado passou, o caçador disparou e não acertou.
E o Xico grita:
"Patrão! está a dar a volta no mato..."
E nova correria para a frente da carrinha... E novo disparo e nada! E na cabine a mamã Raquel e a filha (eu) riam-se às gargalhadas!
"Passem-me cartuchos e não façam barulho que me espantam a caça!" gritava o caçador. Os cartuchos seguiam viagem mas não acertavam...
O caçador desistiu de correr para a traseira da carrinha quando se apercebeu que a caça voltaria para a parte da frente, aí para a 5ª ou 6ª volta...
Depois foi o descalabro total: que tivessem contado (no meio da risota, dos gritos por cartuchos e pedidos de pouco barulho) foram mais 17 voltas que a criatura deu ao carro!!! E eis que à 17ª volta contada, o veado dá o tal salto elegante pela estrada e cai redondo na valeta depois do tiro!
Gritos e vivas e felicitações!
Aproximaram-se do bicho e não havia sinal de bala...
Nunca souberam de que tinha morrido: de susto, ataque cardíaco ou exaustão.
A recém-examinada (eu) recusou-se a assistir à autópsia, a comer nem que fosse uma febra e nunca mais quis ir a caçadas...
Teresa Lacerda
PEDAÇOS DA MINHA INFÂNCIA
Nº III
A Mamã Raquel tivera 3 bebés em 3 anos e achara-se a precisar de fazer uns consertos na boca.
No ano anterior (1954) tinha dado à Pátria mais um rapaz e fora no Dundo, na Companhia dos Diamantes (Diamang), que resolvera fazê-lo.
Nessa altura carregara com a primogénita (eu) para Saurimo onde o Papá Lacerda já tinha apalavrada uma boleia, óptima por sinal(!), para as levar. A criançada ficara em Cacolo com o progenitor e a avó Ilda.
Dessa ida ao Dundo ficou-lhe a ideia de um bom Hospital, etc. e tal.
E foi por isso que lá voltou no ano a seguir para arranjar a boca.
Levou os cachopos mas para grande surpresa da sua primogénita (eu), acabou por decidir levar a ama-seca e deixá-la, a ela (eu) em Cacolo com o Papá Lacerda e avó Ilda!
Corria o ano de 1955.
A revolta instalou-se naquela criança terna e doce (eu) pois já tinha esfregado as mãos de contente por voltar a fazer a mesma viagem!
A guerra foi declarada unilateralmente.
Começou por pedidos de:
"Papá, gostaria de estar também no Dundo. Posso ir?"
Resposta? Moita!
No 1º dia só por 2 vezes.
Depois foram crescendo em número e tom:
"Papá! Não consigo beber o leite; sabe-me mal! Posso ir ter com a mamã ao Dundo?"
Resposta? Moita!
"Avó! Esta sopa tem gordura, faz-me agoniar! Posso ir ter com a mamã ao Dundo?"
Moita!
"Papá! Não posso ficar esta noite no meu quarto; tenho medo! Posso ir ter com a mamã ao Dundo?"
Moita!
"Avó! Já não gosto daquele boneco que me deu nos anos; mete-me nojo! Posso ir ter com a mamã ao Dundo?"
Moita Carrasco!
Nos intervalos destes monólogos interessantíssimos havia choro em altos brados de tal forma que o Papá Lacerda, talvez aconselhado pela santa sogra, resolveu pegar na querida filha (eu) e levá-la a Saurimo para a recambiar para O DUNDO! Não sem antes lhe ter dito que iria de boleia nas camionetas de carga... [e ela (eu) tão preocupada!]
Chegados a Saurimo soube-se que o próximo comboio das ditas estava atrasado e que levaria dias para que tal acontecesse. O Papá Lacerda aproveitara para levar coisas do seu trabalho e teve de reunir várias vezes com o Sr Intendente. A chatinha da filha(eu) acompanhava-o para todo o lado e estava a divertir-se à brava. Era mimada e apaparicada em tudo quanto era sítio por toda a gente e estava já com medo que o tal comboio se formasse e se lhe acabasse a boa vida! Foram ao cinema, as refeições eram no Hotel, as tardes nos baloiços dos filhos dos funcionários da Diamang... Um nunca mais acabar de mordomias! Até houve alguém que lhe ofereceu um lindo pato de celulóide que estava à venda numa prateleira do Hotel!
E porque a visse mais animada (ou porque nunca tivera intensão de a mandar à mãe) acabou por anunciar à tirana (eu) que regressariam a Cacolo dia tal.
E como não podia deixar de ser, a meio da viagem, a carrinha parou... Cumpriram-se todos os rituais conhecidos e por inventar mas a carrinha não andou...
-"Oh Xico! Vai à sanzala do Soba tal tal e diz-lhe que... e que traga também uns frangos que fazemos aqui o jantar para todos, sim?"
Umas horas depois aparecem o Soba, as mulheres, as crianças, os sogros, os cunhados, primos, amigos e vizinhos. E tambores.
Alguém tratou dos frangos. Fez-se uma fogueira no meio da estrada. Assaram-se os frangos e batata doce e mandioca e ginguba.
Depois dos últimos ossos terem sido roídos até ao tutano pegaram nos tambores e... Foi a batucada mais linda, divertida e animada que a "infeliz regeitada" (eu) teve a dita de assistir e participar na sua vida! Já o sol raiava e ainda todos se rebolavam na estrada...
Quando o cansaço atacou em força atiraram-se para o chão para dormir um pouco.
Já de manhã passou uma camioneta (onde é que já está isto escrito também? ) que os levou de volta a Saurimo onde o papá Lacerda providenciou socorro.
E voltou tudo ao que fora dantes: Hotel, baloiços, cinema... Oh! que pena!!!"
Teresa Lacerda
PEDAÇOS DA MINHA INFÂNCIA - PARTE IV
Já a década de 50 ia alta e o papá Lacerda estava colocado no Quela, a 100kms de Malange.
O Quela era um luxo: tinha escola, médico, enfermeiro... Padre não tinha mas havia uma Missão relativamente perto e... pois... era o suficiente. E... pasmem: tinha um motor barulhento que era ligado à tardinha e desligado às 23 e assim as nossas cavernas eram iluminadas! E também as ruas, estão a ver?
Era outro paraíso! O clima estupendo, paisagens de tirar o folgo, perto de Malange onde os meus pais de vez em quando iam ao cinema (oh Fernando! Sabes que filme estará este fim de semana em Malange? Não? Mas sei eu: é "Sissi, Imperatriz da Áustria"! - O papá Lacerda anuia e lá iam eles.), hortas verdejantes, roças de café e A Baixa do Cassange, a maravilha suprema!
Na Baixa do Cassange cultivava-se algodão.
Para se ir para a Baixa seguíamos por uma estrada que tinha uma certa zona...(sobre isto falo noutra altura!) e passávamos por um Miradouro construído à beira da falézia com pilares por onde se enrolavam trepadeiras que faziam caramanchão; por baixo dele uma enorme mesa com bancos corridos tudo em cimento. E sabem o que se fazia por lá? Brutas churrascadas, claro! A poucos metros, num pequeno morro, havia um Forte que mais parecia um aldeamento de Reserva de Caça. Lindo! O Forte de Cabatuquila, o Miradouro chamado de Varanda de Pilatos.
Do Miradouro via-se a Baixa. Um espanto, podem crer: Kms e Kms a perder de vista. Dias houve em que estando no Miradouro, com sol, se assistia de balcão a duas ou três tempestades distintas na Baixa! E tínhamos direito a arco-íris e tudo...
Com zonas tão diversificadas pertencendo ao Distrito de Malange, decidiu o Sr. Governador fazer uma Exposição Feira onde cada Concelho apresentaria, em pavilhão, o que de mais característico houvesse por lá.
O papá Lacerda reuniu com os Chefes de Posto do seu Concelho no sentido de unirem esforços e apresentarem um pavilhão digno de tão linda região. Claro que haveria o café, o algodão, os frutos, as madeiras trabalhadas em lindas peças, e que sei eu mais. Não sei de quem foi a brilhante ideia de se construir, no pavilhão, um mini-zoo mas estão já a imaginar onde os animalitos estavam estacionados desde que foram capturados até ao dia da inauguração. No nosso quintal, pois então! A mamã Raquel teve de desalojar as suas queridas galinhas Island Red para outras instalações e lá iam chegando desde herbívoros a COBRAS!
Foi uma época alucinante! Que comeriam os bambis? Qua dar às cobras? E à tarde, depois da escola, lá íamos todos apanhar umas vagens de umas árvores que bordejavam as ruas e que nós, contrariados, tínhamos de ir dar aos bambis, às gazelas...( eram doces e queríamo-las para nós). Do resto da bicharada alguém se encarregaria, claro.
A mamã Raquel levou-nos várias vezes a Malange para nos mandar fazer as fatiotas à modista (escolher e comprar os tecidos, tirar medidas, escolher os feitios dos vestidos das meninas, fazer as provas... escolher e experimentar sapatos a condizer... Nessa altura éramos só 7 ainda).
Uns dois dias antes do início da Feira os animais foram transportados em várias carrinhas (os senhores comerciantes ajudaram na tarefa) para Malange onde o Sr. Governador disponibilizou as capoeiras dele.
A família avançou também na última viagem e ficou alojada onde sempre ficava, numas vivendas perto do Palácio onde era hábito ficarem os funcionários.
Dia da Inauguração: os pavilhões estavam construídos, os artefactos e bens da terra já nos seus lugares, só faltavam os bichinhos. Uma azáfama a transportá-los e a instalá-los. Tudo numa boa.
Mas para trás ficou O Bambi que o papá Lacerda não confiava a ninguém e que ele fez questão de levar na cabine da carrinha ao seu colo passando o volante ao seu Secretário. E lá foram eles todos lampeiros pela cidade fora em direcção ao sul do Bairro Azul onde era a Feira. Numa curva mais apertada o papá Lacerda desiquilibra-se, O Bambi assusta-se e esperneia e com uma patita bate no fecho da porta e... lá se foram Bambi e Papá Lacerda porta fora!
Do Bambi não se ouviu mais falar!
O papá Lacerda estampou-se de encontro ao passeio e... o Sr Secretário levou-o ao Hospital onde ele foi generosamente pintalgado com mercúrio e alguns pensos. Nada partido.
Em casa, a mamã Raquel com a ajuda da primogénita (eu) vestiu e despiu e voltou a vestir a malta jé em desassossego. Como havia sempre um bebé, provavelmente amamentou várias vezes o indez. Estava preocupada, a desgraçada.
Do papá Lacerda não havia notícias (ainda não tinham inventado os telemóveis naquela zona nem em zona nenhuma).
A hora marcada para a inauguração aproximou-se, chegou e partiu e nós ali. E eis que aparecem os valentes trabalhadores.
-"Então, Fernando? Tiveste um desastre a conduzir?" -"Não. Foi o Pereira que..."
-"Oh seu malvado! Então vai fazer ISTO a um homem que não faz mal a ninguém?"
E fez mensão de se atirar ao desgraçado julgando que ele teria batido no papá Lacerda...
-"Não, não... ele não fez nada..." - balbuciava o Cristo com a boca toda inchada.
Um braço ao peito, inchado e vermelhusco e foi fardado com a ajuda da chorosa esposa. Ficou lindo, o papá Lacerda, de farda de gala, limpa e engomada e BRANCA!
A Família Lacerda fez uma entrada triunfal no recinto da Feira!
Estava o Sr Governador Geral e todas, todas as figuras colunáveis da época! Um show! A RTP, acabadinha de nascer na Metrópole, enviou jornalistas para fazer a cobertura do evento...
O Sr Governador Geral teria perguntado ao seu Secretário:
-"Que colégio é aquele que chegou agora com a sua professora?"
PS - Esqueci-me de vos dizer que as meninas iam todas de igual (vestido de bordado inglês com gola redonda e lacinho azul-escuro, sapatinho de verniz e meia branca) e os rapazes também! (calção azul escuro, camisa branca, lacinho azul escuro, sapatinho de verniz e meia branca)... Imaginação não faltava à mamã Raquel...
Teresa Lacerda
PEDAÇOS DA MINHA INFÂNCIA - PARTE V
A mana Isabel tinha 1 ano e picos e estávamos no Quela.
1957
Havia uma roça de café a poucos kms que era a delícia de muitos. Árvores frondosas, riachos, café (claro) e as instalações dos trabalhadores e a residência do responsável por tudo aquilo. Essa casa era baixa, comprida, telhado de zinco. O chão era de cimento tingido de vermelho e encerado. A D. Cândida, muito jovem e bonita, era do melhor que havia: fazia uns queques deliciosos e biscoitos de canela como só ela. A qualquer altura a que chegássemos havia sempre doçuras!
Uma vez fui lá passar uns dias com eles e os filhos, um casalito muito aprumadinho e educado. Foram dias maravilhosos. A Dª. Cândida conversava comigo, contávamos filmes uma à outra, líamos à vez os livros de LUISA MARIA LINARES e CONCHA LINARES PECERRA, ensinou-me a bordar a ponto cruz mas com preceito... Ensinou-me a fazer os queques... Os filhos deles andavam atrás de mim como se de cachorrinhos se tratassem. Só anos e anos mais tarde percebi que tanta devoção se devia ao facto de ser a única adolescente num raio de centenas de kms. Quanto ao facto de eu ser a única adolescente em "centenas" de Kms, claro que não era bem assim: Malange estava apenas a 100 mas era como se fossem centenas na prática: eles estavam ilhados na "Fazenda Lu-Handa" (com o H aspirado) - Era uma roça mas chamava-se fazenda... Era assim: "Vamos à Roça do Sr. Malheiro?" ou "Vamos à Fazenda Lu-Handa?" (Que nem era nada do Sr. Malheiro. Ele era só o encarregado). Eles não iam a Malange com muita frequência.
E a pobre D. Cândida sofria de solidão! A Mamã Raquel costumava ir lá visitá-la mas era sempre entrada por saída. Os Papas Lacerda e Malheiro davam-se muito bem.
Passear na roça era divinal! O cheiro da humidade dos riachos, do capim, das flores, do café quando amadurecia... Do fumo que vinha da sanzala trazendo o odor do funge (pirão)... Hummm... Até agora me cresce água na boca!
A uns poucos kms da roça havia um recanto saído de um contos de fadas: um dos ribeiros terminava formando um laguinho bastante profundo lá para o meio. As margens eram arenosas mas com o mato logo a seguir.
Por vezes os Papás resolviam ir lá passar o dia e as Mamãs preparavam cestos e cestos de farnel para a malta se orientar. Levavam-se cobertores e as alcofas para graúdos e miúdos poderem dormir belas sonecas. E iam também baralhos de cartas porque os Papás andavam com a mania da Canasta, mania essa que transmitiram à filharada.
O Papá Lacerda e o Papá Malheiro, já fartos desses dias "sensaborões", resolveram arranjar um barco para levar as criancinhas de um lado para o outro no laguinho. As criancinhas não acharam graça nenhuma pois lhes fazia lembrar as horríveis viagens onde as refeições só estavam dentro deles o tempo suficiente para darem a volta e saírem...
O Papá Lacerda, feroz e eficiente caçador (Parte II...) achou por bem desafiar o Papá Malheiro a comprarem linha, chumbos e anzóis. (Não compraram canas porque nessa altura ainda não haviam sido inventadas em Malange embora o tivessem sido no resto do mundo.)
E assim o terrível caçador se transformou em destemido pescador!
Aqui para nós que ninguém nos lê, o Papá Lacerda (que se lembre a sua primogénita, eu) só pescou o dedo mindinho da sua mão esquerda; mas isso foram muitos anos depois e já em Moçâmedes, no Porto do Saco.
E um belo domingo, depois de muitos preparativos científicos para a confecção das canas, a pescaria teve início depois de muitas recomendações e bitaites das Mamãs!
O Papá Lacerda, de calções de caqui e camisa desfraldada ao vento (que não havia), capacete colonial no toutiço (que nunca largava - excepto para o banho, cama e mesa) estava belíssimo! Parecia um dos exploradores, qual Capelo Ivens, sei lá!
O Papá Malheiro estava mais modesto: calções de caqui, camisa desfraldada ao vento e capacete colonial no toutiço...
Um belo par de jarras!
Cada um empunhou um remo com muita perícia. Positivamente, arrastaram o barquito para o meio do lago. Largaram os remos e prepararam os apetrechos de pesca não se esquecendo de espetar, com requintes de malvadez, as pobres minhocas que se contorciam, nos anzóis enquanto na margem as criancinhas gritavam com dó dos pobres bichos.
O Papá Lacerda levantou-se, empunhou a cana, rodou-a sobre a cabeça soltando fio e lançou... E foi borda fora atrás da cana, do fio, do anzól, dos chumbos e das minhocas...
Convém aqui informar os leitores, que o Papá Lacerda era tão bom nadador como era caçador e pescador!
Do mestre pescador só o capacete estava à tona... vazio. Na margem as Mamãs gritavam, a criançada dava saltos de aflição.
Nisto, o topo da cabecinha aparece na água. O Papá Malheiro, valentemente, pega num remo e estende-lho e... Zás! Valente traulitada no toutiço e lá vai o Papá Lacerda outra vez por água abaixo!
Volta o desgraçado a surgir da água, agora já com mais balanço depois da pancada e fez glu-glu e levou outra vez na carola!
Na margem vivia-se um momento único: os saltos e os gritos rivalizavam com qualquer cerimónia pagã de dança ao Deus do Lago!
Pela terceira vez a cena se repete. O chinfrim era tal que os patos que moravam por lá começaram a responder em altos grasnados e depois, já assustados, alçaram voo com estardalhaço... (mal sabiam eles que o Papá Lacerda já tinha planeada uma caçada aos patos do lago... Não haveria de ser grande o problema pelo que sabem dos seus dotes de caçador, mas imaginem que o Papá Malheiro tinha pontaria? )
Finalmente o Papá Lacerda foi pescado do lago depois de muita luta: vestido e calçado e molhado...
Voltámos ao Quela sem peixe, muito roucos depois de tanto gritarmos mas com o nosso Papá resgatado das salsas ondas...
Foi nesse dia que vimos o nosso primeiro DISCO VOADOR! Mas isso é outra HISTÓRIA..."
Teresa Lacerda
PEDAÇOS DA MINHA INFÂNCIA - PARTE VI
Junho de 1959.
O ano lectivo terminara mas a primogénita (eu) dos Papás Lacerda não voltou ao Quela porque ele, o herói da Exposição Feira de Malange, tinha sido transferido mais uma vez.
As Madres de S. José de Cluny de Luanda, Colégio onde estava em regime de internato, enfiaram-na no comboio rumo a Malange onde se iria juntar ao grupo com destino a Santo António do Zaire (ou Sazaire).
O Sr Governador, muito gentilmente, cedeu uma station lilás metalizada com uns 200 anos e muitos kms (foi a maneira inteligente que ele concebeu para se ver livre de tal mamarracho) para a família se deslocar. Ainda agora é um mistério para ela (eu) o porquê de não irem no "carro deles", um Carocha ENORME onde certamente iriam muito mais confortáveis... Nessa altura eram só 8 (não contando com o Papá Lacerda e com a Mamã Raquel novamente de esperanças!) e as bicuatas que não seguiram na camioneta que levou o CAROCHA e os outros haveres da malta, por serem de necessidade primeira.
Em direcção a Carmona, a 1ª etapa. A Station era grande e não era má de todo... Um dia de descanso nessa cidade lindíssima e fresca de frondosas florestas e belos cafezais.
Retemperadas as forças seguiram para o Ambriz onde voltaram a parar (agora por dois dias) porque a Mamã Raquel se queixava de dores nos rins (uma piegas...).
Dessa povoação a mana mais velha (eu) não guardou recordações só se lembrando de andar com uma das bebés mais novas às voltas, desde fraldas a biberons...
A Mamã Raquel estava imprópria para o que quer que fosse.
Nova saída para a estrada mas desta vez já todos com aspecto de comida que cão rejeitou...
O Papá Lacerda era o máximo: desde Malange que tinha a paciência de parar de 10 em 10 kms para que a prole pudesse apanhar ar puro pois confirmou-se a suspeita que eram TODOS alérgicos ao cheiro da gasolina (vá lá saber-se porquê?)...
Saíram pela manhã e antes mesmo do almoço um ruído estranho, como o de um arrastar correntes, ferros... O Papá Lacerda pára a Station, a troup aproveita logo para oferecer aos vermes da terra os restos do mata-bicho (café da manhã) que ainda não tinham sido digeridos, e constata que o pára-choques traseiro da dita se soltara em metade e arrastava pelo chão.
Não houve crise porque na caixa de ferramentas havia um pouco de arame com o qual o valente motorista amarrou o candidato a vadio.
Seguiram viagem e após uma sacudidela mais forte por causa de um pobre buraco na estrada, abre-se a porta das bagagens e começam a cair roupas, brinquedos e chapéus; (foi por milagre que não voou nenhuma das crianças porque nessa época ainda não se tinham inventado os cintos de segurança em Angola nem em parte alguma do mundo).
Nova paragem, nova saída em tropel da filharada para tratar dos restos das bolachas que a Mamã Raquel distribuíra por causa da tal alergia ao cheiro da gasolina e aproveitar também para "regar" umas quencas que nasciam à beira da estrada.
Um resto de arame resolveu o problema.
Kms volvidos, numa curva, abre-se de sopetão a porta traseira do lado direito.
Os milagres acontecem várias vezes por dia e ninguém caiu na estrada...
O fecho da porta partira-se.
O arame acabara.
A Mamã Raquel lembrou-se que tinha fraldas, ainda limpas, da criancinha mais nova.
O Papá Lacerda usou uma para amarrar a porta tentando fazer um nó de pescador que aprendera na tropa mas desistiu e fez um nó cego vulgaríssimo.
E o dia a passar e nunca mais se via o destino.
Pararam para almoçar, para lanchar, para...
A paisagem era muito diferente da que estavam habituados: altas palmeiras, sanzalas feitas de entrançados de palma e muito, muito limpas.
À tardinha, por birra ou cansaço, a Station soluçou, sacolejou, estremeceu e quedou-se muda que nem um rochedo.
Falta de gasolina (outra vez não!)? De óleo? De água? Havia de tudo.
Capot aberto e o Papá Lacerda tentando desvendar os mistérios que existem nesse espaço de todos os veículos: não viu nada que lhe desse qualquer pista (por isso se chamam mistérios - ninguém percebe porque por vezes os automóveis param).
Impressionou muito, principalmente aos rapazes (eles pensaram que o pai estava a concertar algo), batendo com uma chave de fendas aqui e ali, tentando talvez que, com essas pancadas a Station se decidisse a mover-se mais uns kms.
- "Já faltava pouco, caramba!" (era o desabafo mais forte que o destemido conhecia).
Mas ela não se comoveu...
- "Oh Lita! (diminutivo carinhoso que o Papá Lacerda chamava à Mamã Raquel) tira fulaninho do meu banco a vai tentando dar à ignição"!
Assim foi feito e nada...
- "Meninos! Todos a empurrar para ver se pega"!
Assim foi feito e nada...
- "Vou voltar atrás, àquela sanzala pela qual passámos há pouco, para que nos venham ajudar. Fiquem quietos e não aborreçam a Mamã que não está bem".
Regressou umas horas depois com alguns naturais da zona e que, muito simpaticamente se dispuseram a empurrar a Station até Sazaire.
Fizeram uma entrada andrajosa e digna de caricatura na vila! Valeu-lhes ser de noite e ninguém ter presenciado tamanha indignidade...
Era 10 de Junho (Dia de Camões, na época, agora Dia de Portugal e das Comunidades de Língua Portuguesa)...
Por que será que esta família foi fadada a fazer entradas triunfais para onde quer que fosse?
Teresa Lacerda

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