Grafitis
Curiosamente, os grafitis estenderam-se pelos edifícios, pelas plataformas do metro, pelos muros e painéis publicitários de Nova Iorque, Los Angeles e Chicago, e depois pelos de Amesterdão, Madrid, Paris, Londres e Berlim, nos mesmos anos em que tinha lugar a revolução informática nas traseiras de Silicon Valley. Enquanto os novos especialistas em tecnologia exploravam as fronteiras do ciberespaço, a juventude urbana que vivia nos bairros marginais conhecia pela primeira vez o prazer de desenhar letras em paredes e vagões, e a beleza do ato físico de escrever. Nos mesmos anos em que os teclados começavam a revolucionar os gestos da escrita, a cultura juvenil alternativa descobriu com paixão a caligrafia, que até então tinha sido um deleite minoritário. Fascinados com o poder de dar nome às coisas, com as possibilidades criativas que as letras têm e com o sentido do risco na escrita — é um ato perigoso, sempre à beira da fuga, os adolescentes adotaram o alfabeto manuscrito como uma nova forma de se expressarem, de utilizarem o tempo livre e de merecerem o respeito dos seus iguais. O facto de esta apropriação ser tão atual só se explica pela juventude da escrita em relação ao longo trajeto da humanidade - a escrita constitui apenas o último pestanejar da nossa espécie, o palpitar mais recente de um velho coração.
Irene Vallejo

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