Chelsea Hotel
.O Chelsea era como uma casa de bonecas de A Quinta Dimensão, com um cento de quartos, e em cada um deles um pequeno universo. Eu percorria-lhe os corredores em busca dos seus espíritos, mortos ou vivos. As minhas aventuras eram moderadamente atrevidas, como entreabrir ligeiramente uma porta para espreitar o piano de cauda do Virgil Thomson, ou demorar-me junto da placa com o nome do Arthur C. Clarke, na esperança de que ele pudesse aparecer de repente. De vez em quando cruzava-me com Gert Schiff, o académico alemão, armado com volumes acerca de Picasso, ou com a Viva' e o seu aroma a Eau Savage38
. Toda a gente tinha algo para oferecer e
ninguém parecia ter muito dinheiro. Até os mais bem-sucedidos pareciam dispor apenas do suficiente para poderem viver como uns vagabundos extravagantes.
Eu adorava aquele local, a sua delapidada elegância, e a história que ele ia mantendo com tanta possessividade. Havia rumores de que as malas do Oscar Wilde continuariam a repousar algures na cave, que muitas vezes se inundava. Fora all que o Dylan Thomas, alagado de poesia e de álcool, passara as suas últimas horas. Que o Thomas Wolfe lavrara centenas de páginas do manuscrito que viria a constituir You Can't Go Home Again. O Bob Dylan tinha composto a «Sad-Eyed Lady of the Lowlands» no nosso piso, e dizia-se que uma Edie Sedg-wick cheia de anfetamina deitara fogo ao seu quarto quando estava a colar as pestanas postiças à luz de uma vela.
Tanta gente escrevera, conversara e convulsionara naqueles quartos de casa de bonecas vitoriana. Tantas saias haviam roçado aqueles degraus de mármore já gastos. Tantas almas em trânsito se haviam ali desposado, deixado marcas, e sucumbido. Eu cheirava os espíritos deles enquanto saltitava silenciosamente entre um andar e outro, ávida por debater com uma já desaparecida procissão de lagartas fumadoras".
Patty Smith, in Just Kids

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