Saturday, November 26, 2005

Vida Ficcionada

O texto anterior fez-me reflectir num fenómeno que tenho visto a acontecer na sétima arte e cujo melhor exemplo para mim são os filmes Before Sunrise e Before Sunset, ambos de Richard Linklater.
O primeiro filme relata o encontro de dois jovens. O segundo, filmado dez anos mais tarde, relata o encontro dos mesmos jovens, dez anos mais tarde. Com os mesmos actores, dez anos mais velhos.
Mais do que ser uma simples continuação, é o cinema a cruzar-se com a vida. De repente, tudo o que aparentava ser apenas ficção torna-se quase documental e nós sentimo-nos a invadir a vida pessoal daquelas personagens/actores. Onde acaba o real e começa a ficção ? Que experiências realmente vividas levaram os actores consigo para o filme ? Terão sido as personagens que cresceram ou apenas os actores e a história?
Já não falo no facto de eu próprio ter visto o primeiro filme há dez anos e o segundo recentemente. A minha contemporaneadade com a história de que forma influência a forma de vêr o filme. Sendo que ainda para mais sou relativamente da mesma idade que os actores.
Será que a história se limita ao filme? Será que há apenas um filme, que dura dez anos?
Será que eu também me tornei parte da história em que o filme se tornou?

1 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Um huno deveria conhecer o filme As Invasões Bárbaras, do canadiano Denys Arcand, continuação, com quinze anos de permeio, d' O Declínio do Império Americano. Um filme com algum cinismo, aliviado pelo brilhante humor dos diálogos. Os mesmos actores, as mesmas personagens, uma sociedade diferente. Em vez do olhar intimista sobre uma relação amorosa, temos o olhar sobre uma sociedade e sobre uma geração frustrada nas suas expectativas de tornar o mundo melhor, daí o cinismo.
Vida real/ficcionada, somos apenas testemunhas/voyeurs intemporais nesta janela sobre a vida, como a outra era sobre o mundo.
Talvez o fascínio dos filmes, destes e de outros, seja devido a um processo de identificação com as personagens/actores, com o nosso presente ou com o nosso passado. Mas porque não também com o nosso futuro, quando nos projectamos para os nossos momentos finais, olhamos o nosso passado e avaliamos a concretização das nossas expectativas, os caminhos percorridos, e os que ficaram por percorrer... as pessoas que amámos e as que,apesar de amadas, não puderam acompanhar-nos...
(acho que o cinismo não surge com o avançar da vida mas com o que ficou por realizar, amores incluídos)

8:08 PM  

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