Tuesday, June 16, 2026

imagem e som I

No século XX, o cinema sofreu sucessivas ondas de destruição provocadas pelas mudanças de suporte. Agustín Sánchez Vidal nos fornece um cálculo das perdas: "O material mais afetado foi o anterior a 1920, pois nessa época os rolos foram destruídos quando os filmes passaram de uma ou duas bobinas (com uma duração entre dez e trinta minutos) para a duração-padrão de uma hora e meia. A emulsão era aproveitada para recuperar os sais de prata e o suporte de celulose, para confeccionar pentes e outros objetos. As perdas por esse motivo beiram 80% dos filmes. Por volta de 1930, cerca de

70% foi perdido com uma onda de destruições ainda mais sistemáticas, decorrentes da passagem do cinema mudo para o sonoro. E na década de 1950 ocorre a terceira, com a troca do filme inflamável de celoidina pela segurança do acetato. Nesse caso não é fácil quantificar as perdas.

Tomando como exemplo a Espanha, pode-se estimar que apenas 50% dos filmes do período sonoro até 1954 foram preservados." Cada passo do progresso implica, ao mesmo tempo, uma devastação.

Martin Scorsese recriou esse triste naufrágio em “A invenção de Hugo Cabret”.

Lembro-me particularmente de uma cena melancólica na qual o celuloide doss deliciosos filmes de Georges Méliès acaba sendo reutilizado pela indústria de calçados para fabricar saltos. Este é um capítulo insólito da história dos objetos: a beleza das histórias e das imagens que viveram na mente dos pioneiros do cinema acabou sendo reciclada em pentes e saltos de sapato.

Na década de 1920, pessoas anónimas andaram em cima de obras de arte. Enfiaram essas obras nas poças das calçadas.

Pentearam-se com elas. Deixaram vestígios da sua caspa. Nunca desconfiaram que esses utensílios eram, na verdade, pequenos túmulos, monumentos quotidianos da destruição.


O Infinito num Junco

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